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terça-feira, 21 de julho de 2009

Um dia vou contar estórias como Ele...

O ALUNO PERFEITORubem Alves
Ele se chamava Memorioso, pois seus pais julgavam que a memória perfeita éessencial para uma boa educaçãoRubem Alves é educador, escritor e colunista da "Folha de SP", ondepublicoueste texto:
Era uma vez um jovem casal que estava muito feliz. Ela estava grávida, eeles esperavam com grande ansiedade o filho que iria nascer.Transcorridos os nove meses de gravidez, ele nasceu. Ela deu à luz um lindocomputador! Que felicidade ter um computador como filho! Era o filho quedesejavam ter! Por isso eles haviam rezado muito, durante toda a gravidez,chegando mesmo a fazer promessas.O batizado foi uma festança. Deram-lhe o nome de Memorioso, porque julgavamque uma memória perfeita é o essencial para uma boa educação. Educação émemorização. Crianças com memória perfeita vão bem na escola e não têmproblemas para passar no vestibular.E foi isso mesmo que aconteceu. Memorioso memorizava tudo que osprofessoresensinavam. Mas tudo mesmo. E não reclamava. Seus companheiros reclamavam,diziam que aquelas coisas que lhes eram ensinadas não faziam sentido. Suasinteligências recusavam-se a aprender. Tiravam notas ruins. Ficavam derecuperação.Isso não acontecia com Memorioso. Ele memorizava com a mesma facilidade amaneira de extrair raiz quadrada, reações químicas, fórmulas de física,acidentes geográficos, populações de países longínquos, datas de eventoshistóricos, nomes de reis, imperadores, revolucionários, santos,escritores,descobridores, cientistas, palavras novas, regras de gramática, livrosinteiros, línguas estrangeiras. Sabia de cor todas as informações sobre omundo cultural.A memória de Memorioso era igual à do personagem do Jorge Luis Borges denome Funes. Só tirava dez, o que era motivo de grande orgulho para os seuspais.E os outros casais, pais e mães dos colegas de Memorioso, morriam deinveja.Quando filhos chegavam em casa trazendo boletins com notas em vermelho elesgritavam: "por que você não é como o Memorioso?"Memorioso foi o primeiro no vestibular. O cursinho que ele freqüentarapublicou sua fotografia em outdoors. Apareceu na televisão como exemplo aser seguido por todos os jovens.Na universidade, foi a mesma coisa. Só tirava dez. Chegou, finalmente, odiatão esperado: a formatura. Memorioso foi o grande herói, elogiado pelosprofessores. Ganhou medalhas e mesmo uma bolsa para doutoramento no MIT.Depois da cerimônia acadêmica foi a festa. E estavam todos felizes nojantarquando uma moça se aproximou de Memorioso e se apresentou: "Sou repórter.Posso lhe fazer uma pergunta?" "Pode fazer", disse Memorioso confiante. Suamemória continha todas as respostas.Aí ela falou: "De tudo o que você memorizou qual foi aquilo que você mais amou? Que mais prazer lhe deu?"Memorioso ficou mudo. Os circuitos de sua memória funcionavam com avelocidade da luz procurando a resposta. Mas aquilo não lhe fora ensinado.Seu rosto ficou vermelho. Começou a suar. Sua temperatura subiu.E, de repente, seus olhos ficaram muito abertos, parados, e se ouviu umchiado estranho dentro de sua cabeça, enquanto fumaça saia por suasorelhas.Memorioso primeiro travou. Deixou de responder a estímulos.Depois apagou, entrou em coma. Levado às pressas para o hospital decomputadores, verificaram que seu disco rígido estava irreparavelmentedanificado.Há perguntas para as quais a memória não tem respostas . É que taisrespostas não se encontram na memória. Encontram-se no coração, onde mora aemoção...(Folha de SP, 24/1)
"Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo. A última coisa que se pode sentir diante da 'eterna novidade do mundo' é tédio. O pensamento é uma criança que explora essa caixa de brinquedos chamada mundo. Pensar é brincar com os pensamentos." (Rubem Alves)

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